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Cristologia em Cantares de Salomão

CENÁRIO RELIGIOSO

1. Pergunta-se qual a analogia entre a religião e o livro Cantares de Salomão. Tudo parece demonstrar que seja um cântico erótico de amor sem referência à religião ou fé em Deus, cujo nome não é mencionado, exceto “Yah”, denominação divina abreviada, que aparece incidentalmente em 8:6 (no original). Entretanto, o rabino Akiba (135 d.C., aproximadamente) asseverou que era o mais sagrado dos Livros Sagrados (hagiógrafos) de Israel. Foi considerado sagrado como alegoria do relacionamento amoroso entre Israel e o Senhor da aliança. Como tal, era lido anualmente pela nação por ocasião da Festa da Páscoa, quando o povo comemorava a libertação do Egito e o seu novo relacionamento com Yahweh, o Deus da aliança. Não se sabe quando a nação passou a considerar o livro dessa maneira, mas parece ter sido esse um dos motivos que determinaram sua inclusão no Cânon Hebraico.

2. Esse Cântico de Amor, porém, foi também apreciado e julgado sagrado por Israel devido à sua descrição cândida, mas primorosamente metafórica, do amor conjugal. Eleva o relacionamento entre esposo e esposa a um alto plano de dever sagrado e experiência espiritual, cumprindo a ordem divina da intimidade conjugal de Gênesis 2:24. Enfatiza também a importância de adiar tal intimidade, “nem desperteis o amor” (8:4), até chegar o dia do casamento.

OBJETIVO DE CANTARES DE SALOMÃO

O objetivo histórico do livro é comemorar o casamento de Salomão com a linda Sulamita e expressar as delícias do casamento nas suas relações mais íntimas como uma dádiva de Deus. Com essa ênfase positiva fica a constante advertência aos jovens para manter pacientemente a virgindade e pureza sexual, tendo em vista que poderão expressar todo o seu amor na união conjugal. O objetivo religioso do livro baseia-se na lição do puro amor conjugal para retratar a relação amorosa entre o Senhor e o seu povo: Israel e Yahweh no Antigo Testamento, a Igreja e Cristo no Novo Testamento. Nenhum livro da Bíblia expressa essa intimidade amorosa conjugal de um modo tão exclusivo como Cantares. Os dois objetivos complementam-se admiravelmente.

CÂNTICO DA FESTA DA PÁSCOA

Pode parecer estranho que um cântico de amor com ênfase na atração e amor físicos se tornasse um livro de “Escritos Sagrados” para ser lido na Festa da Páscoa. Essa festa era a primeira do ano religioso de Israel, uma ocasião muito solene. O fato de o livro não mencionar Deus, culto ou religião, torna isso ainda mais estranho. Se, porém, nos lembrarmos de que a Páscoa era a comemoração do livramento de Israel e do princípio do relacionamento como uma nação sob a aliança, teremos um indício da propriedade dos Cantares na Páscoa. A aliança de Israel com o Senhor é muitas vezes retratada pela união conjugal (Isaías 50:1; 54:5; etc.). Num certo sentido, a Páscoa era uma comemoração de aniversário. A descrição sutil do relacionamento divino por trás do romance humano (a história de Salomão e sua noiva), também explica a ausência de menção direta de Deus. A presença divina permeia o livro na pessoa de Salomão, o amado. Do mesmo modo que as parábolas de Jesus muitas vezes apresentam Deus na figura de um “rei”, “juiz”, “pai” etc., Cantares de Salomão ensina com habilidade a verdade divina do relacionamento do Senhor com o seu povo, ao descrever o modelo carnal do matrimônio. Deus estava sempre presente na Páscoa ao ser lembrada a sua misericórdia, e a leitura de Cantares dava mais ênfase à união espiritual da aliança. Não é de admirar que os judeus considerassem Cantares de Salomão o “santo dos santos” dos “Escritos Sagrados!”.

LIVRO MAL COMPREENDIDO E NEGLIGENCIADO

Quando bem-entendido, o ensino desse livro é importante a todas as gerações, especialmente a nossa, que enfatiza as emoções liberadas e a permissividade. Entretanto, Cantares de Salomão, como o Livro de Eclesiastes, está entre os livros mais mal-entendidos e evitados da Bíblia. Os dois livros procuram combater dois dos maiores pecados morais e filosóficos dos nossos tempos: 1) o pecado da abominável filosofia de vida que afirma ser a morte o fim da existência; 2) o pecado da permissividade do sexo pré-conjugal. Isso tem acontecido, em grande parte, devido ao não reconhecimento da linguagem metafórica de advertência aos solteiros e às francas descrições um tanto chocantes do amor conjugal. Muitos ascetas puritanos bem-intencionados, que consideram o sexo como mal necessário, só podendo ser discutido aos cochichos, acham a franqueza de Cantares quase ilícita. Uma compreensão correta do desenvolvimento da narrativa e das metáforas empregadas revela um modo muito delicado de tratar do assunto, em nada diferente da maneirados profetas e do Senhor (Ezequiel 23:3, 21; Lucas 23:29).

CRISTOLOGIA DE CANTARES

Assim como Cantares simbolizava o relacionamento de amor entre o Senhor da Aliança e Israel, também tipifica o relacionamento de amor entre Cristo e a Igreja. Cristo é “maior do que Salomão”, ao qual está a Igreja prometida “como virgem pura” (Mateus 12:42; 2 Coríntios 11:2; Efésios 5:27). Talvez não haja descrição metafórica melhor do relacionamento conjugal e íntimo do que a de Cantares de Salomão. Embora da primeira vez tenha vindo como Pastor para desposar sua noiva, Ele ainda virá em esplendor real para recebê-la na sua câmara de núpcias. Nesse ínterim, seu “estandarte” (solicitude protetora) sobre ela é o amor (Cantares 2:4).

—– Retirado de: Stanley Ellisen – Conheça Melhor o Antigo Testamento.


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