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O Final Longo de Marcos é Inspirado?

o final longo de Marcos é falso

INTRODUÇÃO
Não há dúvida sobre a originalidade de quase todo o texto do NT. Porém, existem algumas passagens cuja originalidade tem sido questionada, como o final de Marcos. Depois de Mc 16:8, há uma discordância nos manuscritos. Alguns deles terminam no v.8, com a frase: “pois tiveram medo”, apesar da maioria conter os outros 12 versos. Será que esse trecho é original ou foi acrescentado posteriormente? Esse é o assunto deste post.
Estudar isso nos esclarece algumas questões importantes sobre a confiança nos textos bíblicos.

Leia o último capítulo de Marcos.

I. OS ARGUMENTOS CONTRA
Vejamos os argumentos para a rejeição da passagem.

Evidência Externa. É fato que os melhores manuscritos que existem (Códice Sinaítico e Códice Vaticano) não contêm o final de Marcos, encerrando o livro no v.8. Além deles, algumas versões em outras línguas também omitem os versos finais, como também fizeram alguns dos Pais da Igreja.
Há ainda manuscritos que contêm o final longo, porém, incluem notas dos escribas ou marcas indicando dúvidas sobre o trecho.

Evidência Interna. Os críticos tentam mostrar que o final não combina com o restante do livro em 3 aspectos: (a) o estilo não é o mesmo usado em todo o livro; (b) cerca de 17 palavras desse trecho final não aparecem em qualquer parte anterior do livro; (c) A ligação entre o v.8 e os vv.9-20 parece forçada.
Os críticos dizem que esses aspectos indicam que os versos finais foram acrescentados por algum escriba que sentiu falta de uma conclusão menos repentina do livro.

Evidência Teológica. Os críticos dizem que o trecho final de Marcos contraria a fé cristã e o restante da Escritura. Assim, não seria inspirado e deveria ser rejeitado. Os indícios: (1) o batismo como exigência para a salvação (Mc 16:16); (2) a aparição de Jesus em forma diferente (Mc 16:12); (3) ideias fantasiosas, tais como beber veneno e pegar em cobras (Mc 16:18).

Os argumentos podem parecer suficientes para rejeitarmos o final de Marcos. Contudo, vamos analisá-los um por um.

II. CONTRA-ARGUMENTO

Qual é o argumento da evidência externa?

Evidência Externa.
Embora os manuscritos citados omitam os doze últimos versos de Marcos, existe vasta evidência externa que os apoiam como sendo originais. Mesmo não fazendo parte desses manuscritos, esses versos são encontrados em praticamente todos os manuscritos gregos restantes que contêm o final de Marcos. Todas as versões latinas e versões siríacas (versão mais antiga do NT em outro idioma) contêm os versos, com raríssimas exceções.
Apesar de alguns dos Pais da Igreja terem omitido ou rejeitado a passagem, os primeiros Pais da Igreja conheciam os versos e fizeram muitas citações em seus escritos (Justino Mártir, 150 d.C.; Ticiano, 175 d.C.; Irineu, 180 d.C.; Hipólito, 200 d.C.). Eles viveram 150 anos antes da composição dos códices Vaticano e Sinaítico. Isso mostra que os versos já existiam naquela época.
Além disso, apesar de não constar o trecho nos manuscritos citados, há um espaço em branco indicando que os escribas sabiam de sua existência. O motivo da omissão é desconhecido. Talvez o manuscrito utilizado por eles não o tivesse, mas eles sabiam que ele constava em todos os outros manuscritos. Por receio de apenas não colocá-lo, deixaram o espaço.
Qual é o argumento da evidência interna?

Evidência Interna.
Sobre a mudança de estilo: apesar desse argumento levar em conta o estilo de escrita, não leva em conta o propósito do livro.
Marcos não era um romancista, um escritor profissional. Ele estava preocupado em relatar corretamente os fatos. Os assuntos eram mais importantes que o tom do livro e o estilo de escrita.
17 palavras da passagem não são encontradas em todo o livro. Porém, o teólogo John Broadus fez um estudo dos 12 versos anteriores ao trecho (Mc 15:44-16:8) e encontrou outras 17 palavras nessa seção que não são encontradas em nenhum outro ponto do livro.
Ou seja, o que está acontecendo é que o vocabulário foi mudando por causa do assunto.
Quanto à suposta ligação forçada entre o v.8 e o v.9: se o verso foi acrescentado, por que isso não foi atenuado por quem acrescentou?
A transição entre os versos só é estranha se não levarmos em conta as ênfases e o propósito de Marcos desde o primeiro capítulo. Diferente dos outros evangelhos, já no primeiro verso, Marcos mostra que irá direto ao ponto: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”, pulando o nascimento, a genealogia e a infância de Jesus.
Ele só cita João Batista, por mais que isso contrarie seu estilo, por entender que era um personagem de extrema importância. Mas, logo em seguida, foca nas ações de Jesus, gastando metade do livro em seus três anos de ministério terreno, enquanto toda a outra metade é gasta só com a última semana de Jesus. É quase como se ele estivesse fazendo uma grande introdução para o que ele realmente queria mostrar. Então, ao chegar no fim do livro, ele apenas corta mais conexões desnecessárias e vai direto ao ponto, dizendo algumas das últimas palavras ditas por Jesus.
Qual é o argumento da evidência teológica?

Evidência teológica.
1) A argumentação de que o final de Marcos contraria a fé cristã e o restante da Escritura é tão fraca quanto aquela usada para colocar Tiago contra Paulo (Rm 3:28, 5:1, Ef 2:8-9 e Gl 3:24 “versus” Tg 2:24).
O próprio Jesus, às vezes, parece ensinar que há algo da nossa parte a ser feito para sermos salvos (Mc 10:17-21), o que Ele mesmo diz que é impossível na mesma passagem (Mc 10:26-27).
De fato, não há nada da nossa parte a ser feito na salvação. A obra completa é do Senhor.
Porém, o Senhor requer certa conduta dos seus servos.
Marcos 16:16 não ensina que é preciso ser batizado para ser salvo, mas apenas relaciona a salvação ao ato do batismo, como obediência a Jesus, tornando pública a fé à comunidade cristã. Por isso, no mesmo verso, Marcos diz que “quem não crer será condenado” e não “quem não for batizado”.
2) A idéia de Jesus aparecer em outra forma não contradiz outros relatos da ressurreição. Trata-se de uma simples descrição de sua ida ao povoado de Emaús com os dois discípulos, em que Ele apareceu numa forma irreconhecível. Diferente das demais, em que Ele foi reconhecido imediatamente. Por isso, Lucas nos conta mais detalhes, dizendo que quando os discípulos chegaram em Emaús seus olhos foram abertos para que reconhecessem Jesus (Mc 16:12; Lc 24:13-16).
Marcos registra o ponto de vista de Jesus (forma diferente), enquanto Lucas dá o ponto de vista dos dois discípulos (olhos cegos).
Não há qualquer contradição.
3) Sobre beber veneno e pegar em serpentes, existem, sim, inúmeros casos de interpretações absurdas e práticas contrárias à prática cristã. Porém, a péssima teologia de alguns líderes cristãos não pode deslegitimar a passagem. Em Atos 28.3-6, temos um exemplo do apóstolo ser acidentalmente mordido por uma serpente mortífera e, mesmo assim, sobreviver.
Os sinais prometidos aos discípulos do Senhor em Marcos não são inéditos, pois tanto Mateus como Lucas registraram a promessa e o cumprimento desses sinais (Mt 10:1; Lc 10:17-18). Do mesmo modo, Hb 2:3-4 indica que os sinais acompanharam os cristãos. O fato de haver abusos baseados nesses versículos não significa que eles devem ser descartados.

Alguma dúvida? Envie-nos e ficaremos felizes em responder!

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