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Não, não confiamos na bondade humana

Por Lucas Rosalem

A fé protestante, diferente das outras correntes, tem uma convicção bíblica sobre a natureza humana que faz toda a diferença para a vida, que é explicada na doutrina da depravação total, que você pode ler aqui.

Apenas para termos uma noção mais clara das afirmações bíblicas sobre isso, quero relembrar com você algo que Paulo diz em Romanos 3:

“…como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Romanos 3:10-18).

Apesar das ênfases que eu dei no texto acima, sem dúvida alguma a parte que mexe mais comigo é a última: “Não há temor de Deus diante de seus olhos”, e é essa afirmação que sustenta todo o resto.

É importante para mim começar esse post dessa forma antes de dizer o que vou dizer agora: eu sou um cristão reformado anarcocapitalista (ou libertário, se preferir, ainda que as duas palavras não signifiquem rigorosamente a mesma coisa). Eu sei que ambos os termos não “se vendem” muito bem entre cristãos, mas sei também que na maioria dos casos o problema é a falta de gentileza por parte dos críticos cristãos em tentar mesmo ouvir as ideias e testar se as compreenderam bem antes de sair descendo a letra em textão ou vídeo na Internet.

Por que eu quis citar a depravação total antes disso? Porque uma das acusações comuns contra reformados ancaps (como vou chamar a partir daqui os que pensam como eu) estariam confiando demais na bondade das pessoas ao desejarem uma sociedade sem a presença coercitiva do Estado, o que é totalmente falso. Aliás, essa é uma acusação falsa até mesmo para ancaps incrédulos. Nenhum ancap, reformado ou não, confia na bondade humana. Ao contrário, justamente por pressupormos a maldade intrínseca à raça humana (no caso dos reformados, crê-se ser em virtude da Queda) é que cremos que o monopólio estatal da segurança, das leis, dos tribunais e da aplicação da força é utópico.

Tão utópico que o que temos é essa realidade de hoje. Ou você ousará dizer que vivemos em um mundo seguro e justo? E faz sentido continuar confiando que mesmo as coisas não dando certo como são é assim que as coisas devem continuar e de outra maneira é que não dará certo? Pois é. Isso, sim, parece utópico.

De qualquer maneira, é por pressupormos a depravação total que nós, reformados ancaps, cremos que a descentralização dos monopólios estatais citados acima seria mais eficiente e traria inovações (aprimoramentos) que hoje, com zero incentivos, os governos jamais sequer pensariam. E não só isso, trariam também incentivos opostos aos que temos hoje e que são responsáveis em boa parte pela criminalidade.

O anarcocapitalismo extinguiria a depravação dos homens? Não, e nenhum ancap diz isso. O anarcocapitalismo traria novas opções de como lidar com esse problema, isso sim, sem dúvidas – que hoje é literalmente impossível, proibido, passível de punição estatal, por que quem decide como resolver os seus problemas não é você.

Reformados ancaps acham que o capitalismo resolve tudo? Não. Nenhum deles diz isso. Mas aqui vai uma pergunta: esses mesmos que gritam a doutrina da depravação não são os mesmos que gritam a ideia da graça comum? Nesse caso, o medo de mudanças não faz sentido. Parece mais uma ideia de que Deus perderia o controle se as coisas mudassem. Esse é um raciocínio estranho vindo de um reformado.

Próximo item: reformados ancaps são idólatras do mercado? Bem, apenas diz isso quem não entendeu nada do que se trata ou quem confia na estrutura estatal moderna acima de todas as coisas. Nesse caso, o idólatra seria você, não nós.

Sobre essa falácia, essa acusação de idolatria ao capitalismo, eu já respondi em outro texto, que você pode ler aqui.

Ancaps podem ser muito arrogantes às vezes, eu não duvido disso. Então, tente não repetir o erro ao rapidamente acusá-los pelos motivos errados que estão apenas na sua cabeça, provavelmente pela falta de compreensão das ideias deles. Seja humilde ao menos a este respeito: os ancaps, em geral (esqueça molecada que entrou nessa por moda), leem e estudam muito sobre os assuntos que gostam de falar. É realmente muito difícil você pensar em uma pergunta que já não tenha sido respondida trocentas vezes pelos ancaps na Internet. Ao invés de fazer textão com pegadinhas ou perguntas que pareçam sem resposta, tente procurá-las antes e irá fazer um favor a você mesmo.

No mais, seja gentil com aqueles que discordam de você. Farei o possível para seguir esse mesmo caminho. Na pior das hipóteses, nós, reformados ancaps, somos apenas tolos com ideias ruins, não é?

Você crê em Jesus? Eu também. Graças a Deus, não somos salvos nem pela intelectualidade, nem pela qualidade das nossas obras falhas.

“…o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Romanos 3:28)

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