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A morte que deu vida!

“No primeiro dia da semana […] foram ao sepulcro. Encontraram removida a pedra do sepulcro, mas, quando entraram, não encontraram o corpo do Senhor Jesus” (Lucas 24:1-3)

Nós temos uma boa notícia: Ele ressuscitou dos mortos, como estava prometido! A esperança na Boa Nova nunca foi vã. Essa notícia é tão profunda que pode transformar a vida de qualquer um de maneira radical. E hoje nós temos sérias razões para nos alegrar e desfrutar dessa realidade. Deus tirou dos nossos corações o luto, a dor e o pranto do exílio dos cativos, e transformando em canto de esperança! A morte do Messias trouxe paz. Como pode a morte trazer tamanha satisfação e confiança?

Nós não fomos criados para a morte. É por isso que até hoje, mesmo depois de tantos bilhões de humanos que nasceram e faleceram, desde a queda de Adão – por onde a morte entrou no mundo – a humanidade não só vê com estranheza, mas teme e treme diante da morte. O pregador diz, em Eclesiastes 13:11:

“Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez”.

É compreensível que a noção de que a cada minuto a morte se aproxima, cause no homem uma angústia desesperadora, uma ansiedade que consome a alma, uma aflição que nos faz ou confessar nossos pecados e medos ao Criador, ou acusá-lo tolamente pelos problemas e pela corrupção da humanidade.

Sem o convencimento do Espírito Santo e o entendimento da mensagem do Evangelho, o homem está fadado à idolatria e paganismo: uma relação de trocas com aquele que ele fantasia ser o deus que o livrará de tudo que for preciso, mediante suas oferendas, sejam em comida, em dinheiro ou em boas ações. E, assim, o desespero nunca termina.

A ansiedade se torna ainda mais intensa e delirante quando a pessoa, ainda cega pelo deus deste século, nem sequer considera mais a possibilidade de um ser superior, seja ele o Deus cristão ou qualquer entidade. É assim que muitos lançam suas expectativas na ciência (ou, melhor dizendo, pseudociência) a fim de encontrar propósito para sua miserável vida insignificante. Sua insignificância se torna mais gritante à medida, na tentativa de encontrar alívio em filmes e séries futuristas, confirma ainda mais que o homem não passa de pó. Sua esperança é obrigatoriamente depositada em discursos políticos moralistas e promessas tecnológicas. Muitos de nós sabem bem o que é essa crise existencial, o “desespero do infinito”, essa doença terrível da alma que é a angústia de não conseguir justificar sua existência. Não poder encontrar a paz, a satisfação e o regozijo na morte. Seu labor é baseado no desespero, a vida é vivida no anseio de ser significativo para a história, de não ser apenas pó; a sensação de chegar aos 30, 40… 70 anos de idade e ter a impressão de que o tempo foi perdido, só pode levar à desistência ou a mais labor baseado na finitude.

Como Igor Miguel já disse, a morte biológica é apenas um drama mais expressivo e intenso, e um reflexo mais concreto de uma série de rupturas que acontecem na vida humana: quebra de vínculos familiares por desafeição, inimizade entre grupos étnicos, nacionalistas e partidos políticos, preferências de qualquer natureza, inimizades relacionais por causa de poder, dinheiro ou influência, etc. A morte permeia tudo que fazemos, e até quando desejamos fazer o bem, esse desejo vem acompanhado de orgulho e performance religiosa.

Todos nós sabemos que iremos morrer! Sabemos também que, a partir de certa medida, não podemos nos prevenir desse evento, pois ele é inevitável, é radical. A morte para alguns é a figura mais perturbadora, ainda que finjam ser eternos, finjam não se importar, finjam, por fim, ser livres.

Então, diante desse fato – a finitude – vemos outro fato claro: todos nós estamos em busca de algum tipo de salvação, por mais incoerente, insuficiente e estúpida que possa ela possa se revelar.

Quando olhamos para as Escrituras e refletimos sobre a história de Israel, percebemos que a morte é decorrente da separação entre o homem e Deus, a própria ruptura entre Criador e criação; ela entra em cena afastando-nos da relação com o Senhor. A morte é a saída do jardim.

A morte, portanto, é o princípio do nosso exílio!
O homem caminha dia após dia para a sua finitude.

Por causa do pecado, assim caminha toda a humanidade, desde os tempos de Adão e Eva, e assim tudo continuaria. Mas certo dia aconteceu algo que mudou tudo. “Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24:6).

O homem começa a entender, finalmente, que o exílio que começara para longe de Deus não era um ciclo de morte inquebrável, mas uma longa jornada cujo trajeto voltava direto para o Criador!

As mulheres foram até Jesus pensando encontrar morte, na finitude. Tal foi a confusão em suas mentes quando se depararam com a vida, que os anjos precisaram relembrá-las da promessa de Jesus sobre seu triunfo sobre a morte.

“‘Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? […] Lembrem-se do que ele lhes disse, quando ainda estava com vocês na Galiléia: “É necessário que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, seja crucificado e ressuscite no terceiro dia”‘. Então se lembraram das suas palavras” (Lc 24:5-8).

Era como se dissessem: por que vocês insistem em olhar para o mundo como se a única coisa que existisse fosse a morte? Por que ainda estão rememorando a morte no madeiro e o sofrimento, pensando no Messias como um fracassado, como apenas mais um homem refém do mesmo exílio causado pelo pecado?

Aquele homem, punido no madeiro, agredido, violentado, lançado à cruz e condenado para que Deus derramasse graça àqueles que ainda seriam julgados, não estava mais lá! Um filho de Adão venceu morreu por nós e também a venceu por nós, fechando esse ciclo tão perturbador e angustiante.

“Visto que a morte veio por meio de um só homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem. Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados” (1Co 15:21,22)
Os anjos chamaram aquelas mulheres a olharem para o mundo sob essa nova perspectiva: a ressurreição!

É isso que motiva a Igreja de Cristo. A Igreja precisa se deleitar na realidade de Cristo, e quando ela fizer isso, ela comunicará essa realidade. Não há como olhar para a tumba vazia, entendê-la e não se tornar, imediatamente, uma testemunha dessa visão. O ânimo que move nosso testemunho é orgânico, porque uma igreja que se encontrou com a vida, quer anunciá-la! “Quando voltaram do sepulcro, elas contaram todas estas coisas aos Onze e a todos os outros” (Lc 24:9).

O interessante é que, ao contrário do que a maioria não percebe, Tomé não foi o único insensato a não acreditar no triunfo de Jesus. Mesmo recebendo o anúncio da concretização da promessa de Cristo, por parte daquelas mulheres, todos os discípulos ficaram sem entender; eles não acreditaram!

“Mas eles não acreditaram nas mulheres; as palavras delas lhes pareciam loucura” (Lc 24:11).

Os discípulos até ali ainda estavam com aquela visão mais rasa possível, de que o Messias havia sido apenas um grande e bom homem, um perfeito exemplo de moralidade e de ação social, um judeu que, por fim, havia terminado seu exílio no martírio. Era mais um rebelde político que havia sido morto injustamente. Quão grande mais poderia ser a tolice de quem andou por três anos lado a lado com o próprio Deus em carne?

Pedro precisou ir até a tumba para se maravilhar por si mesmo com o que havia acontecido.

O texto mostra ainda outra situação reveladora: enquanto alguns dos discípulos estão andando a caminho de Emaús, Jesus aparece a eles. A perspectiva antiga, da morte, era tão forte e tão mais real que tudo na vida, que eles não reconhecem o Cristo ao seu lado! O texto dia que seus olhos estavam como que impedidos de reconhecê-lo. Jesus pergunta a eles do que conversavam, e a resposta é surpreendente:

“O que aconteceu com Jesus de Nazaré […] Ele era um profeta, poderoso em palavras e em obras diante de Deus e de todo o povo […] o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram; e nós esperávamos que era ele que ia trazer a redenção a Israel” (Lc 24:19-21)

Veja que eles sabiam do que se tratava a jornada de Cristo, mas não faziam ideia do que ela significava. Eles estavam dizendo: “aquele que nós esperávamos que fosse o enviado de Deus, o Messias, que redimiria o nosso povo, nos tiraria do cativeiro, da tirania dos poderosos e encerraria nosso exílio, foi morto! Nossa esperança se foi!”
O limite da tolice é a expansão da cegueira!

Perceba como essa mesma informação pode ser experimentada de forma tão diferente com a perspectiva correta. Nós, salvos em Cristo, que contemplamos a Boa Notícia da ressurreição, mudamos apenas o final: “aquele que nós esperávamos que fosse o enviado de Deus, o Messias, que redimiria o nosso povo, nos tiraria do cativeiro, da tirania dos poderosos e encerraria nosso exílio, foi morto! Nossa esperança chegou!”

A cegueira persiste apenas até quando o Senhor se manifesta; e Cristo fez isso da forma mais emocionante e simbólica possível, ao partir o pão com eles mais tarde, mas não sem antes explicar novamente a eles o Evangelho relatado desde Moisés até os demais profetas, como é dito do verso 25 ao 27.

Jesus desaparece diante dos olhos daqueles homens assim que eles se dão conta de quem Ele era. Eles então correm até os demais discípulos e contam tudo o que aconteceu, quando Jesus reaparece, não com uma mera saudação, mas prenunciando o que sua obra trouxera: “Paz seja com vocês!” (Lc 24:36).

Aquele mesmo Jesus que outrora estava na cruz, com o corpo moído, inteiro retalhado, sangrando, com cora de espinhos, cravos nas mãos e pés, um pouco depois estaria na frente dos discípulos comendo peixe e mel!
A morte do Cordeiro inocente nos livrou do que era para nós, nos livrou da finitude. A ressurreição foi o último golpe sobre a morte!

A Boa Nova era que a eternidade havia invadido o tempo presente, trazendo o eterno para a nossa história. A Boa Nova é que nós podemos encarar de frente a morte, pois sabemos quem é que possui a chave da morte e do inferno!
A Boa Nova é que Aquele que morreu totalmente, também ressuscitou totalmente, para salvar pessoas totalmente. Cristo não morreu na cruz para salvar nosso espírito, mas nossa existência por completo! Não há dimensão da nossa vida que não seja atingida em cheio pelo que Ele fez.

Veríamos, a partir dali, um povo com um olhar tão diferente sobre a morte, que seriam marcados e lembrados pelo martírio em nome de Cristo. O testemunho deles foi o desapego da sua própria segurança pessoal, da tentativa de se autopreservar. O pavor diante da morte desapareceu; não existe mais desespero. Mais tarde, Paulo diria “o viver para mim é Cristo, o morrer é lucro!”

Que hoje, eu e você possamos pedir ao Senhor que o Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos esvazie nosso coração para que possamos ser batizados – inundados! – pela ressurreição, pelo triunfo de Jesus. Que nós possamos enxergar todas as coisas pela perspectiva do Cristo vivo, com a nossa existência desintoxicada da morte, do vazio, do desespero, do ressentimento, da apatia, do cinismo, da violência e da murmuração; e sermos fartos do bom perfume de Cristo, do aroma da ressurreição. Que nós possamos ser renovados pela graça do nosso bom Senhor Jesus, que ressurgiu dos mortos e vive para sempre!