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A abolição da lei mosaica e do sacerdócio levítico

Por Lucas Rosalem.

O título é forte, não é? Muita gente, já pelo título, chamaria de “heresia”. No entanto, preste atenção na passagem abaixo, pois ela sozinha diz o que diz o nosso título:

“Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei (Hebreus 7:12).

Você entende o que essa frase significa a fundo? Preste atenção.

A ordem levítica (ou araônica) do sacerdócio foi o elemento mais importante para os hebreus no período do deserto até antes do exílio babilônico. No exílio, impedidos de oferecer sacrifícios pelos pecados no templo em Jerusalém (que havia sido destruído), começaram surgir as sinagogas, onde os judeus se empenharam em manter viva a tradição judaica através do ensino da lei mosaica. Com a queda do Império Babilônico, os judeus foram liberados para voltar a Jerusalém e reconstruir o templo. No entanto, ainda que os sacrifícios tenham recomeçado, a lei ganhou uma importância descomunal na vida dos israelitas. A tradição (a identidade) passou a ser a coisa mais importante para o povo.

De fato, a ordem sacerdotal iniciada no deserto não era eterna, ainda que os israelitas não entendessem isso (ou não quisessem entender!). Outra ordem sacerdotal, muito superior, seria profetizada por Davi nos Salmos (110:4).

A lei parecia superior ao sacerdócio, visto que era a lei que o regulamentava. Porém, o ápice da Antiga Aliança nunca foi a lei, mas o sacerdócio. Por quê? Porque ele representava o único motivo pelo qual Deus podia fazer uma aliança com a humanidade sem diminuir sua justiça e santidade: os pecados do povo seriam pagos completamente, não por eles, mas pelo derramamento do sangue de um substituto.  

A prova de que o sacerdócio é superior à lei é que a lei não podia alterar a forma do sacerdócio. Em contrapartida, foi uma mudança de sacerdócio que mudou a lei, como diz o verso lá em cima (Hb 7:12). A mudança no sacerdócio teve um poder total de mudança em todo o sistema sacerdotal, abolindo a classe superior dos sacerdotes israelitas, que se tornaram inúteis e ultrapassados.

“Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade” (Hb 7:18).

A própria lei em si se torna inútil e, por causa da sua fraqueza, foi revogada com o sacerdócio de Cristo. Mas em que sentido a lei era fraca e inútil? O próximo verso responde: “pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma, e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus” (Hb 7:19).

Os sacerdotes levíticos eram os únicos que podiam cuidar das coisas no templo; o sumo sacerdote era o único que podia oferecer sacrifícios pelos pecados do povo. No entanto, eles não eram pessoas especiais, superiores. Eles apenas ilustravam o que Deus faria através do sumo sacerdote escolhido por Ele, Aquele que verdadeiramente ofereceria um sacrifício definitivo e realmente válido para todos os pecados que aqueles sacerdotes antigos representavam.

“Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens sujeitos à fraqueza, mas a palavra do juramento, que foi posterior à lei, constitui o Filho, perfeito para sempre” (Hb 7:28).

Há mais algumas coisas que necessariamente mudaram, mas que raramente vemos serem tratadas a fundo e talvez por isso ainda haja tanta idolatria em torno de líderes evangélicos, ou pelo menos tanto misticismo em torno deles por parte de algumas denominações neopentecostais, em especial.

Uma das doutrinas mais importantes para o protestantismo e que nos separa do catolicismo é a doutrina do Sacerdócio Universal de Todos os Crentes.

Para explicar melhor o problema, pense na questão da ceia e do batismo nas águas. Na sua igreja, quem administra essas duas coisas? Provavelmente, apenas os líderes, certo? E não há nenhum problema nisso, pois trata-se, geralmente, de uma questão organizacional, e não de uma questão supersticiosa ou dogmática. Mas isso não abrange todos os casos. E pior: está longe da maioria dos evangélicos compreenderem que não há diferença entre eles e seus pastores. Nós explicamos isso em detalhes no livro 500 Anos Desobedecendo o Papa.

Mas vamos voltar à questão da ceia e do batismo.

  • No contexto da ceia, Jesus só diz “fazei isso”, mais nada (Lucas 22:19). Paulo também não vai além (1Coríntios 11:24). Não há nenhum outro critério, como “líderes, fazei isso”, ou “igreja, receba dos líderes”. Quando Jesus institui a ceia, Ele está falando aos discípulos, mas Paulo está falando diretamente à igreja, ou seja, apenas a pessoas comuns, não a bispos ou diáconos.
  • No contexto do batismo, todos os discípulos são incluídos na função de discipular e batizar, não apenas os líderes. Não existe nenhuma restrição. Quem disser diferente está mentindo, está inventando uma regra aleatória para algum fim maldoso, provavelmente para tentar manipular ou garantir algum outro benefício.

Ademais, no Novo Testamento inteiro é posta abaixo qualquer diferença entre clérigos e leigos nas obrigações da Igreja, o que torna simplesmente absurda a ideia de continuar diferenciando clérigos e leigos, como se apenas uma classe especial pudesse “levar a igreja a Deus” ou algo semelhante, como era no Antigo Testamento. Então, como é que isso não se aplica, inclusive de forma ainda mais especial, aos sacramentos?

Imagine o seguinte exemplo: um missionário vai para uma aldeia. Ele evangeliza, batiza e ministra a primeira ceia, mas aí morre de malária. Assim, não resta nenhum oficial cristão ordenado na comunidade, nem nada perto disso. Só há um bando de gente que entendeu perfeitamente o Evangelho e creem. Se apenas oficiais ordenados pudessem ministrar os sacramentos/ordenanças, toda essa gente estaria automaticamente excluída de participar das ordens de Jesus, celebrando sua obra por nós na cruz e incluindo novas pessoas na comunidade de fé. Isso ficaria assim até que surgisse outro missionário ou pastor ordenado oficialmente por uma denominação. Sinceramente, isso faz algum sentido?

Porém, se essa gente tivesse aprendido só Bíblia, e não posições muito específicas dogmáticas, e existisse ali uma versão para eles lerem em seu próprio idioma, eles não iriam ter realmente nenhum impedimento teológico para batizar outras pessoas e participar da ceia, porque biblicamente além de não haver nenhum impedimento, há uma ordem para que se os dois ritos sejam exercidos pela igreja local.

Para concluir, quero dar um outro exemplo, um exemplo verdadeiro.

Conheci um rapaz nos meus tempos de pentecostalismo (de outra igreja na mesma cidade) que foi obreiro por um bom tempo, pregava e tudo mais, mas se desentendeu com o pastor local e pegou desgosto pela denominação. Mas ele não saiu. Ele fez um esforço lascado para terminar o curso teológico da igreja e ser levado para a convenção onde seria “consagrado” como pastor (mais ou menos isso). E por que ele fez isso? Para poder ser “espiritualmente autorizado” a abrir uma igreja. Ou seja, na mentalidade neopentecostal desse sujeito, ele precisava ser ordenado oficialmente por uma instituição e isso legitimaria o seu ministério pastoral. Por incrível que pareça, essa é uma história real. Foi exatamente isso que ele fez e ele mesmo me disse depois de feito.

Veja, eu não estou falando contra instituições/denominações. Eu sou membro de uma, sempre fui. Se você não está comprometido com um grupo local de cristãos, isso diz muita coisa sobre a sua falta de compreensão a respeito do que é o corpo de Cristo. Além disso, eu entendo perfeitamente a necessidade de uma organização para que as coisas funcionem direito na igreja local, além do fato de precisarmos de pessoas de respeito para serem o espelho da igreja. Isso é bíblico (Atos 6). Também entendo que não faz sentido nenhum que batismos e ceia sejam administrados fora do contexto de igreja local.

E também não estou tentando movimentar algum tipo de “revolução”.

Apenas quero que você, membro, entenda que você não é diferente dos seus líderes (se é que você entendeu o Evangelho e creu). Líderes não são superiores. Não existem mais sacerdotes superiores na igreja, ok? Na verdade, cada cristão é um sacerdote. Veja a responsabilidade que você tem diante de Deus e dos homens!

“Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1Pe 2:5).

“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2:9).

“E para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra” (Ap 5:10).

“E nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1:6).

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