Nenhum de nós merece a salvação. Nem os mais “espirituais”, nem os mais distraídos (se é que posso dizer tão suavemente). Na parábola do filho esbanjador (pródigo) Jesus dá um tapa na cara dos “irmãos espirituais”, dos assíduos frequentadores de igrejas que, por isso, pensam “merecer mais” a glória vindoura.
Alguns “irmãos” estão tão convictos de sua suposta bondade que, ao que parecem, esqueceram de como se dá a salvação (pela graça, mediante a fé e não pelas obras, para que ninguém se glorie). Esses, talvez até se zanguem quando veem irmãos com problemas de pecado mais evidente participando da mesma ceia. E o tapa da parábola foi a esses!
“Este meu filho estava morto, e voltou à vida” (Lc 15,24).
Como Edward Schillebeeckx escreveu:
A parte mais fina da parábola é a outra parábola que ficou por assim dizer entrelaçada. O filho mais velho, fiel à Lei, sente inveja e até uma santa indignação. A ele nunca foi oferecida uma festa assim, embora tivesse servido fielmente a seu pai, atendendo-lhe a todos os pedidos.
Aí aparece a convicção judaica da época a respeito da remuneração pela fidelidade à Lei (Lc 15,29-30), e no fundo a gente percebe também certo desprezo pelo pecador: não chama o filho pródigo de“meu irmão”, mas distancia-se: “ agora que esse teu filho voltou”. A parábola passa por cima da recompensa do mérito, e reduz a fidelidade legal a um relacionamento pessoal de justiça.